Levando o Itacaré para o ponto de partida

Tempo de leitura: 7 minutos

São Paulo, 6 de Junho de 2016.

Caramba, por onde eu começo este post ?! Tanta coisa aconteceu nos últimos 15 dias que ficou difícil traduzir em palavras e manter o povo atualizado por aqui.

Estivemos nos últimos 15 dias levando nossa caranguejola de Martinique para Curaçao, sendo este nosso ponto de partida com toda a família mês que vem. Foram quase 650 milhas náuticas de fortes emoções e grandes aprendizados. Meu irmão Tete e velho amigo Richa me acompanharam nesta empreitada. (Valeu amigos!!)

Para variar o “video game” mudou de fase e meu estômago passou a contorcer de novo – agora sim, por motivos náuticos e oceânicos. A sofrência começou logo no despacho das bagagens em Guarulhos – errei nos cálculos e exagerei um pouco. O resultado é que fui xingando o diabo das caixas com nossas tralhas de SP até nosso destino final. De checkin em checkin fui pagando excesso de bagagem… desgraça! “Mas tudo bem, já levei metade da nossa mudança”, tentei me confortar.

…a sofrência nos acompanhou também quando chegamos em Martinique dois dias depois (depois de uma rápida escala em Barbados).

A instalação do painel solar atrasou muito, e ficamos os primeiros 5 dias parados no pier do estaleiro acompanhando o entra e sai dos gringos pendurados no barco entre soldas e parafusos.

Tudo bem que a viola e cerveja rolaram solto para alegrar o ambiente. Mas fiquei com pena dos meus tripulantes..  que tinham a promessa de sombra e água fresca mas não tinham nem colocado o pé na água até então ficando restritos a muito trabalho e carregamento de peso (foi mal galera!)

Neste longa parada aproveitamos para estocar o barco com comida, água, gás… e algumas peças reservas de motor, vela e coisas do tipo. Aproveitei o embalo (e o tempo livre) e troquei as correntes da ancora do barco, coloquei cadeados novos nos paios, configuramos a internet, arrumamos equipamento de pesca e mergulho, comprei cabos para ajudar na rizada das velas… e outras coisas a mais. A cada espirro saia 250.. 300 euros.  Outro espirro, 450 euro. Jesus, meu bolso vai naufragar na partida.

Mal o serviço terminou.. e enquanto o polonês estava dando a última polida pendurado no inox que segura as placas solares.. já estávamos dando partida no motor para nossa primeira saída. Ahh, a primeira vez a gente nunca esquece.

Foi como tirar um caminhão jamanta da garagem do prédio.  “Como isso aqui faz curva?!”. O diabo do vento soprava, e meu estomago apertava manobrando a geringonça. Coitado do Itacaré… maltratamos ele um pouco nos primeiros dias dado nosso baixo nível de conhecimento. Nos enrolamos um pouco na subida e descida da mestra, nos enrolamos com a catraca elétrica que sismou de morder e travar os cabos. Algumas cenas de vídeo cacetada depois  e já estávamos mais ambientados a caminho de St Lucia, 50 milhas ao sul. O antigo dono me falou que levaria algo entre 15 e 25 minutos para me acostumar e gostar do bichão…  ele tinha razão.

E ah se eu te falasse do vento daqui !!  …essa cena que você tem ai na sua cabeça de que o caribe é sombra, coco e água cristalina..  existe só no teu cérebro.  O visual é este mesmo, mas por aqui o vento apita intenso agudo, sem descanso. 25 nós e onda de 2 metros são calmaria por aqui, nada parecido com o que vivemos na Ilhabela e Paraty nos últimos 4 anos.

Mas fato é que nosso batismo foi logo de cara – como uma injeção na bunda, não deu tempo nem de sofrer muito: já embicamos a barcaça rumo a St lúcia e pronto. Mar aberto, vento forte e onda de través (de lado) estourando no casco. O estômago apertou dado o batismo, mas que velejada dos deuses! Itacaré voou junto com nossos sonhos e pensamentos.

Como disseram os franceses, “quando o barco é grande, o mar fica pequeno”. “Se estivéssemos neste mar com o Lafitte, seria um salseiro!”, pensei. Mas o Itacaré cortou o mar de peito aberto, sem tomar susto e nos levou firme a quase 9 nós até nossa primeira ancoragem, em Marigot – St Lucia – 5 horas depois.

Cheguei realizado. O vídeo game mudou de fase de novo, afinal o capitulo até aqui era para iniciantes. Minha cabeça mal relaxou com a cerveja da chegada e já estávamos pensando no próximo alvo adiante: travessia de 4 dias até Curaçao com parada em Los Roques. Aí sim… alto mar..  a 300 milhas de lugar nenhum.

Tudo bem que para tal empreitada, nossa tripulação ganhou grande reforço – nosso amigo Silvio Ramos veio de SP e se juntou a nossa jovem tripulação incrementando bastante a senioridade do time (quanto a “jovem tripulação”, você entendeu não é?!.. não preciso explicar).

Foi como nosso vascão mesclando juventude com uns caras casca grossa-vividos dando solidez ao time. Já falei sobre o Silvio em outros posts..   ele já deu volta ao mundo em seu veleiro e muito nos ajudou nas primeiras caminhadas com o Lafitte.. bem como na preparação para este projeto.  E claro, ele não ia perder o desenrolar dos acontecimentos.

O dia amanheceu, fizemos a papelada de saída do barco, entupimos de diesel até o talo … e aproamos para mar aberto para seguir nosso rumo. O vento fresco nos acompanhou no começo mas a medida que o tempo correu foi aumentando de intensidade como previsto nas cartas e previsão do tempo – assim como nosso aprendizado, que foi crescente ao longo do percurso.

Logo na primeira noite nossa linha sacudiu com um atunzinho de 2 a 3 kg – que virou sushi em questão de minutos alegrando nossa atenta tripulação. Os dias e noites se seguiram entre turnos, bate papo, e muito ajuste de vela e miudezas no barco. Silvio incansável olhava tudo a bordo dando sugestões de manutenções, de regulagem ou ajustes em geral. Ganhei muito tempo de aprendizado.    … e minha lista de tarefas que tava esvaziando ja engordou com uns 97 itens. Valeu amigo!

O único susto que tivemos foi em uma noite qdo tivemos um rumo cruzado com um barco de pesca.. desviamos, mas ele manteve o rumo na nossa direção, apagamos as luzes e como um barco fantasma na noite escura cortamos por eles a 500m de distância.. vai saber suas intenções.

Nossa escala em Los Roques foi dos deuses.  Inclusive anote ai na tua planilha: Los Roques – Venezuela! Imperdível. Pena que o tempo foi curto, esse lugar pede uns 30 dias. Ancoramos em um circulo de corais de mar azul piscina, destes dignos de cartão postal – e fomos brindados de novo pelo mar, desta vez com uma cavalinha de uns 2 a 3kg que virou posta na panela regada a cerveja.

Nossa chegada em Curaçao foi animada, bem comemorada.. com muita cerveja e animação. Paramos na marina (Seru boca Marina) como previsto..  e o dia seguinte se desenrolou com muito trabalho preparação da papelada de entrada no país bem como na arrumação para deixar o barco descansando pelos próximas semanas até nosso desembarque em definitivo no fim de junho..  ai sim, de mala, cuia, papagaios e apetrechos.  Nos aguardem!!

Antes de fechar este post, fica aqui meu agradecimento a meu velho irmão e amigo Tete, a meu velho amigo e parceiro Richa.. e meu recente e importante amigo, Silvio.  Tripulação nota dez!!

Fica aqui também o agradecimento especial as nossas esposas que compreenderam o momento.. e seguraram as pontas a nossa espera em São Paulo.  Afinal.. tivemos momentos de 3 dias sem noticias em alto mar..  não deve ter sido fácil a espera. Valeu esposas !!  (tudo bem que os maridos estão dizendo que isso não contou como alvará pois só teve ralação..  e eles precisam de outros 15 dias, ok ?! ;)))

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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