Outubro passou voando

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Curaçao, 26 de Outubro de 2016.

Escrevo estas palavras novamente de Curaçao devidamente amarrado no pier da marina. Aqui dá popa do Itacaré vejo um mar de azeite de botar inveja a nossa amada Parati.

Quem disse que o vento alísio também não tem seus dias de folga por aqui ?! Pois temos tido tempos de tanta calmaria com vento fraco e mar manso que até parece que a terra parou de rodar.

Ficamos sem dar notícias por aqui mas foi porque muita coisa legal aconteceu neste rápido mês de Outubro e nos faltou tempo…

Recebemos nossas primeiras visitas aqui em “casa” com muita farra e abraços saudosos.

Primeiro minha mãe veio de Niterói nos visitar e por uma semana curtiu conosco as águas calmas de Curação.

O tempo foi tão benevolente que deu até para levá-la a Klein Curação – uma pequena ilhota a duas horas de viagem daqui.

Ela se saiu muito bem nessa primeira experiência a bordo. Deu para curtir snorkel, o mar aberto, as saídas para pescar atum, o mergulho com tartarugas e até fogueira na praia rolou ao som da nossa velha viola. Valeu Merita!!

Quem também esteve por aqui foi minha sogra, cunhados e sobrinhos.

Galera boa demais também. Foi tiro curto, coisa de uma semana e muita bateção de perna por todas as praias de Curaçao, intercalado com churrascos e muitas cervejas. Todos já estão deixando saudades e seguem para suas vidas em dois dias e nós seguiremos por aqui, ao sabor do vento.. um por do sol por vez.

O mês de Outubro foi também nosso primeiro mês de tempestades e avisos de mal tempo…

Pois é. Tivemos que antecipar nossa saída de Bonaire mês passado justamente pelo aviso da vinda do furacão Mattew.

Os prognósticos variaram entre catástrofes e calmarias e na dúvida acabamos antecipando em 10 dias nosso retorno para Curaçao e nos preparamos para o pior devidamente amarrados por todos os lados na nossa querida Seru Boca Marina – um verdadeiro hurricane hole (abrigo de furacão, protegido por todos os lados).

Acabou que o mal tempo pouco deu as caras e o tal Mattew passou a quase 200 milhas daqui (o que para o amigo leigo significa… “muito longe”) e a única consequência foi ondas maiores estourando na costa norte da ilha (nem vimos) e uma chuva mais forte no primeiro dia. O tal Mattew seguiu seu rumo norte ganhando força e varrendo a pobre Haiti novamente. Uma pena.

A preparação para chegada da tempestade foi uma boa escola pra gente pois diariamente (5 vezes ao dia!) passamos a consultar ansiosamente todos os sites gurus de vento para acompanhar a evolução do bichano o que melhorou bastante nosso skill meteorológico.

Tome nota aí:

NOOA.comStormcarib.comwindguru.com,windfinder.comhurricane.compassageweather.com, etc. Pode escolher o seu preferido. Nós, na dúvida, passamos a consultar todos eles periodicamente.

Pra você ver como são as coisas… estávamos todos bem preparados à espera do furacão mas ele passou longe. Mas dias depois fomos quase pegos de surpresa com um grande squall (pirajá / chuva de verão). Entrou pelo sul no começo da noite desavisado lavando Curaçao torrencialmente. Por sorte nossa estávamos devidamente amarrados na marina olhando o céu estrelado com a molecada e deu pra ver o clarão dos raios se aproximando.

Deu tempo para rapidamente reforçar e verificar todas as amarras e depois assistir da cabine a bagunça passando e lavando o Itacaré.

Mas no dia seguinte recebemos com tristeza a notícia vinda de Bonaire de que a mesma tempestade que passou por aqui no começo da noite, passou por lá no meio da madrugada pegando todo mundo de surpresa fazendo o vento rodar e transformar a calma ancoragem em frente à vila em um belo quebra mar com ondas na cara.Por azar dos nossos amigos franceses, o cabo de amarração do barco deles se partiu e o barco foi encalhar nas pedras no embalo das ondas. É de partir o coração. Eles quase tiveram que abandonar o barco… no sufoco foram rebocados e com leme e quilha bem avariados seguiram para o abrigo da Marina.

Pra você vê como lá em cima tem gente olhando pra gente: um dia antes estávamos todos juntos ancorados em Klein Curaçao curtindo um lual com viola e fogueira na praia. No dia seguinte nós seguimos para marina em Curaçao e eles para Bonaire. Poderia ter acontecido com a gente.

Você aí da cidade, não fique assustado com este depoimento, ok?! Você já pensou em quantos riscos você corre diariamente quando sai de casa para ir trabalhar ? ..viver tem seus riscos, e a vida a bordo não é diferente e também tem seus sustos e aprendizados.

Esse mês fizemos também um grande upgrade na arte da pesca… Pois até então a coisa tava feia.

Saímos várias vezes para pescar atum de corrico e aprendi muito com os amigos portugueses do veleiro El Caracol. Aprendi a usar o “bird” para atrair o cardume (uma espécie de de peixe de madeira que você puxa na superfície e fica se debatendo na água), aprendi a selecionar e montar uma fieira com anzóis e lulas artificiais, aprendi também a como melhor limpar o peixe tirando o seu filé preparando-o para o sashimi.

Agora a coisa ficou bem mais interessante e ganhou bem mais técnica. A prova final foi em uma dessas saídas quando o mar foi generoso conosco e pegamos 7 atuns em três linhadas… dois na primeira, dois na segunda linha..   e três bichanos na terceira.

Tudo junto e embolado, foi lindo! Mais lindo ainda é ouvir o ziiiiiiiiiiiiiiiimmmm da carretilha gritando anunciando o sashimi se aproximando.

Espetáculo! Pouco sabia sobre esta arte e desde então minha vida como pescador passou ser contada no período “pré-El Caracol e pós-El Caracol”. Valeu Jorge !

Claro que estes sete atuns fizeram a farra da galera. Parte virou ceviche, parte sashimi.. e a maior parte foi parar na panela de barro engordar uma bela moqueca para alegria de todos os barcos amigos ancorados por perto.

Chegamos a ter 20 pessoas a bordo do Itacaré se esbaldando na moqueca de atum com tempero brasileiro. Eta Farra boa. Já deixou saudades.

Logo depois os barcos amigos foram seguindo seus caminhos. Um voltou para Bonaire, outro seguiu para o Panamá, outro foi de avião para New Zealand, outro retornou para o Alaska, cada um no seu rumo.. e novamente nosso pier ficou vazio. A vida no mar é assim mesmo e já estamos começando a nos acostumar: uma vida repleta de grandes amizades e abarrotadas de encontros e despedidas.

Neste mês avançamos um pouco mais também na preparação do barco para viagem dado que em breve deixaremos nosso porto seguro aqui de Curaçao para nos aventurarmos pingando de ilha em ilha mar a fora.

Resolvemos em definitivo o problema de entrada de ar do motor de boreste (era o filtro que separa água do diesel que tava bichado). Instalamos também prendedores para os rizos negativos (Silvio, ficou um luxo..  você ia gostar de ver!). Instalamos também um corrimão no teto do barco para melhorar a segurança.

Compramos mais coisas pra “casa” (aspirador de pó, maquina de gelo, liquidificador..), resolvemos também como estocar a água potável através de uns galões de 15L, instalamos também carregadores 12v pelo barco evitando assim termos que ligar o inversor para carregar o iphone e ipad.

E por fim, resolvemos também a troca das redes da frente do barco pois as atuais estavam podres. Compramos as novas da França e a chegada delas aqui é o que nos prende para seguirmos viagem para Bonaire.

Mas é como já falamos anteriormente..  Essa lista não acaba nunca!

A gente elimina um item, aparecem outros dois. Haja bolso. Agora foi a vez dos marcadores de profundidade e de vento pararem de funcionar. Mas esses aí acho que vamos resolver mês que vem lá de Porto Rico pegando embalo na instalação do plotter e AIS que queremos comprar. Vida dura rapaz, ta pensando que é moleza a vida a bordo?! Todo dia é sábado, mas a gente também trabalha quase todo sábado. 😉

Avançamos muito também na homeschooling e a coisa começou a engrenar. Mês passado foi um sufoco para cumprirmos o roteiro do dia, tá lembrado?! …já neste mês a coisa começou a ganhar velocidade, com todos mais adaptados e menos rebeliões e motins a bordo.

Temos aprendido muito com esse processo, não somente na lida com as crianças mas também aperfeiçoando muito nosso vocabulário e pronúncia. Muito interessante ensinar (aprender?!) gramática, fonética..  É como ser alfabetizado novamente em um novo idioma e compreender o porquê do som de cada palavra, cada vogal e cada consoante. Vamos ver agora se arranco de uma vez por todas o velho inglês safado niteroiense da gente! …acho improvável, mas sigo acreditando!

Montei (pra variar) uma longa planilha com as lições que temos que cumprir ao longo do ano todo.. com metas mensais. Estamos atrasados é bem verdade, mas pelo menos temos um rumo. Pois é, fazê o que?! …até no paraíso eu monto planilha.

Na virada deste mês rumaremos novamente para Bonaire para esperar de lá uma boa janela para subir ao norte para Porto Rico – aí sim, nossa primeira verdadeira travessia de 3 dias no mar em família.

Te confesso também que durmo pensando no assunto e tenho me dedicado todas às noites estudando rotas, cartas e guias náuticos. O alto mar e a vida a bordo em geral já entraram na nossa rotina, mas travessias noturnas ainda são novidade fazendo com que meu estômago aperte com a aproximação de uma delas. Faz parte. Acredito que em breve também passaremos a achar isso normal.

Pra finalizar… este mês saiu uma reportagem na Revista Náutica sobre a gente.

Ficamos muito felizes com o texto e com todas as mensagens de apoio que recebemos.

Obrigado a todos os amigos que tem nos acompanhado e mandado pensamentos positivos pra gente.

Obrigado em especial ao Tarcísio Alves – pois veio dele o convite e a entrevista para fazer a reportagem. Ficou show rapaz, parabéns !!

Em Novembro mandaremos mais notícias por aqui – talvez de Bonaire ou quem sabe de Porto Rico…

Até!

 

 

 

 

 

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