Ahh minha pátria amada

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Alpes Campgroung (Fronteira com Canadá), 24 de Agosto de 2017.

 

Você já pensou em viajar acampando pelos Estados Unidos ? Pois é… a nossa vida a bordo é cheia de aprendizados, tanto no mar quanto em terra.  Ahh Brasil, minha pátria amada, como eu gostaria que você fosse diferente.

 

Um ano atrás viemos da terra para o mar ansiosos por deixar a civilização para trás. E agora fizemos justamente o caminho contrario e ansiosos seguimos nossa aventura por terra rumando ao Norte pelas estradas perfeitas dos EUA abarrotados de tralhas e sonhos em busca do frio, do silêncio e da paz da floresta.

E hoje estamos acampados bem ao norte do estado de New York no meio de uma reserva florestal quase fronteira com o Canadá de onde escrevo ao vivo estas palavras.

A vida no mar já é um grande “acampamento” e nossa tripulação não teve dificuldade para naturalmente se adaptar a nova aventura. Eu já tinha sido mulambo profissional na minha juventude, já minha amada nunca tinha vivido essa experiência. Quer saber como ela se saiu? …espetacularmente adaptada e ambientada! A mulher é danada! Ela tem dormido como um anjo na barraca, feito trilha morro acima e tem cozinhado divinamente em um pequeno fogão de uma só boca alastrando o cheiro de comida mato adentro despertando ursos e guaximins.

E por falar em urso…. é ele quem tira meu sono hoje assim como o vento tirava na nossa vida no mar. E por aqui é normal eu acordar no meio noite com o estalar das madeiras e fungar de bichos em torno da barraca. Até agora vimos veados, guaximins, esquilos, coelhos e gambás. E basta a escuridão tomar conta que eles surgem de mansinho atrás de comida.

Mas urso mesmo até agora não vimos. Ainda bem ! Ou que pena ? Os sentimentos aqui são misturados equivalentes ao sentimento que temos pelos tubarões na nossa vida no mar. Por um lado queremos que eles apareçam pois assim teremos mais história pra contar, mas por outro queremos eles distantes visto nossa insignificância ao lado deles. De novo o quente-frio da vida.

Percebi que a floresta assim como uma boa fogueira me traz paz e tranquilidade equivalentes a que sinto quando fico parado na popa do barco olhando pro mar. Chegamos a conclusão de que a fogueira deve ter sido a “TV” dos tempos antigos tamanha a capacidade de atração do nosso olhar e pensamentos profundos. Ouvi essa sacada do meu amigo Ferão enquanto divagávamos sobre a vida e os problemas do mundo enquanto olhávamos para o fogo. Faz total sentido!

Acredito que to virando um mestre foguereiro, tamanha a quantidade de braseiro que acendo. Faço ela de noite, de dia, com madeira molhada, seca, graveto, sem graveto … do jeito que tiver. Aço carne, linguiça, cogumelos, milho, salsicha… tudo no braseiro de lenha selvagem recolhida por perto. Um espetáculo!

Demos pro nosso caçula de aniversário um pequeno machado e ele tem se aprofundado orgulhoso junto comigo na carreira de lenhador. “Pai, antes meu sonho era ser jogador de futebol… mas agora eu quero ser lenhador profissional, tudo bem?”, pergunta ele. “Tudo bem, filho”, digo eu.

 

Nossa equipe do mar até que tem se saído muito bem em terra. E, para ser sincero, ninguém até agora reclamou de saudade da vida a bordo. Estamos em paz com isso até o momento, mas vamos ver mais a frente.

Já passamos por vários estados até o momento – Florida, Georgia, Carolinas, Virginia, New York, Vermont, New Hapshire e Maine. Até aqui uma imensidão de verde por todos os lados, temperatura super agradável e vida selvagem muito bem preservada.

A gente acredita orgulhoso que Brasil é o pulmão do mundo mas depois de rodar dias e dias seguidos por estas bandas comecei a duvidar desta tese. Os EUA é lindíssimo, extremamente preservado com verde pra todo lado, muito bicho e casinhas com jardins impecáveis convivendo em harmonia com florestas assim como a gente vê nos filmes. Tudo dos sonhos! E não estamos falando de somente um Estado mas sim de quilômetros e quilômetros de Estados seguidos.

Você aí que pensa que somos aventureiro demais vale um comentário final: Acampar pelos EUA nada tem a ver com acampar no Brasil. A conclusão é quase óbvia: por aqui é seguro e as coisas funcionam.

Você chega em um campground e encontra tudo limpo, com posições das barracas devidamente demarcadas. E se você quiser reservar com antecedência, basta fazê-lo pela internet. Cada espaço tem uma própria área de fogueira/braseiro já cravada no chão (e com grelha!). Pontos de água potável estão espalhados por todos os cantos e, o mais surpreendente.. sabe o que você acha quando entra no banheiro ? Papel higiênico !

Mas não para por ai não. Tem também papel toalha para mãos, sabão e água quente. Tudo limpo, bem cuidado e organizado. E tudo isso mantido pelo estado, acreditas? E esse relato aqui faço depois de passarmos por 4 campgrounds diferentes em diferentes estados. Não estamos descrevendo a exceção, mas sim a regra – sendo este o padrão deles por aqui.

Quer ficar mais P ?!

Sabe quantos funcionários uma reserva estadual destas tem ? Muito poucos. Não precisa ser diferente. Sobretudo pois o povo que frequenta é educado e não deixa lixo para trás. Quando alguém usa o banheiro deixa tudo impecável, sem rastro. A mentalidade aqui não é a do tipo “já que estou pagando, o mundo que se exploda”. Mas sim a de que “se eu sujar, preciso limpar… pois sou responsável pelo que faço”. Os caras trazem até vassoura no carro para varrer os pequenos restos de lenha que ficam em torno do braseiro. E quando saem parece que o espaço é novo, recém montado.

A mentalidade desta galera aqui esta há anos luz a frente da nossa brasileira. Sinto uma mistura de raiva e tristeza quando penso nisso.

E a grande diferença não está nos políticos, mas sim no indivíduo. É claro que toda regra há exceção. Mas a grande média do povo americano é formado por indivíduos que respeitam as regras e cumprem as leis e que preservam um sentimento enorme de responsabilidades individuais e de comunidade.

Já nos brasileiros…. ahh… Brasilllll… minha pátria amada…

Vou parar por aqui e deixo você completar esta reflexão. Afinal esse blog não é sobre política ou coisa do tipo, mas sim sobre nossas andanças e reflexões enquanto rodamos por ai.

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