Até breve Bonaire!

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Porto Rico, 6 de Novembro de 2016.

Depois de meses entre Curacão e Bonaire chegou a hora de nos lançarmos ao mar em direção ao Porto Rico. Com a tripulação em alto astral contornamos a ponta norte de Bonaire nos lançamos na imensidão azul do mar do caribe.

Travessia Bonaire – Porto Rico

  • Distância: 425NM (milhas náuticas)
  • Velocidade Média: 6,5kts (nós)
  • Duração: 2 dias + 19 horas (3 noites)
  • Saída: 4/Nov/2016 – Quarta – 16:30
  • Chegada: 6/Nov/2016 – Sábado – 12:00
DIA 1 (Quarta) 20:00 / 400NM a sudoeste de Puerto Rico
 
Partimos as 16:30 da linda Bonaire. Agora são 20:00 e a tripulação toda já desabou no sono. Sobraram eu, meus pensamentos, um mar escuro a volta e um filete de lua escondida entre as nuvens. Quanta expectativa acompanhou nossa saída!
Mergulhei novamente na análise do tempo, em pesquisas da melhor rota e muitas dúvidas surgiram…  A verdade é que dado a falta de experiência não sei até que ponto podemos confiar nas previsões e logo bate uma puta dúvida sobre que melhor janela de tempo pegar. De novo me apoiei no Silvio que do Brasil nos ajudou na escolha da melhor rota e janela de tempo (valeu SR!).
Escolhemos seguir viagem essa semana pois desceu um frente fria entre Porto Rico e Republica Dominicana …e a entrada dela no norte do Caribe fez o ventilador do sul do Caribe rodar ao contrário…. e até desligar. Logo a previsão é de calmaria seguida de vento sul e sudeste, o que é bom pra gente que quer subir ao norte.
Até agora – 4 horas após nossa partida… Está tudo calmo a nossa volta, nada de vento e mar parado. Seguimos nosso rumo a nordeste motorando a 5kts.. bem ruim (tem uma corrente freando a gente), mas deve melhorar depois que nos afastarmos da Costa. Previmos uma média de 6,5kts – em uma travessia que deve levar quase 3 dias … Vamos ver.
DIA 2 (Quinta) – 14:00 / 315NM ao sul de Puerto Rico
A previsão do tempo se confirmou e até aqui só tivemos calmaria. O Itararé vem deslizando liso sem sacolejos e a vida segue normal a bordo, ninguém enjoado… Já vimos 3 filmes (um deles foi o Rambo I, lembra dele ?!).
O ruim é que tivemos que motorar até aqui e mesmo assim o barco vem andando pouco mantendo média de 5kts (uma bosta!). O diabo da corrente contra continua freando a gente. Me arrependi de não ter enchido os galões de diesel reserva. Se tudo der errado e as previsões furarem e tivermos que manter este ritmo podemos levar 1 dia a mais pra chegar e o combustível (ou a falta dele) pode ser um problema. A previsão do tempo nos jura que ao longo da noite entra um Sudeste… Vamos ver, estamos aguardando ansiosamente por ele!
DIA 2 (Quinta) – 17:00 / 280NM ao sul de Puerto Rico
Completamos 24 horas de travessia… E andamos 145milhas até aqui… Ruim.
A parte boa é que há duas horas atrás o vento nordeste entrou (esse aqui a previsão não falou nada) ..não é o ideal mas já melhorou muito. Desviamos nosso rumo 30 graus e agora seguimos N (ao invés de nordeste), já deu pra desligar um dos motores e o barco passou a andar a 7kts – ótimo, voltamos pro jogo! …podemos ficar assim pelas próximas 12 horas até a entrada do Sudeste amanhã de manhã.
O mar também foi generoso com a gente e nos brindou com um dourado de uns 3kg (!?) …a cabeça já virou caldo e os filés vão pra panela mais tarde. Do mar também vieram 3 passarinhos exaustos de tanto voar. São duas andorinhas (tudo bem esbarrar com elas aqui) – mas o outro é um destes amarelinhos de jardim.  “O Que você está fazendo aqui tão longe da costa rapaz?! ….se o Itararé não tivesse passando você ia dormir aonde ?”
…agora tá uma briga a bordo entres as crianças pra definir quem é dono de quem. Já avisamos que eles são da mãe natureza e a hora que eles quiserem eles seguem viagem.
DIA 3 (Sexta) – 09:00 / 177NM ao sul de Puerto Rico
O vento aumentou a noite e o mar cresceu junto com ele. Rizamos as velas no riso 2 por segurança e o Itacaré veio bem de 6 a 7 nós sem esforço. Nosso marcador de vento não está funcionando, mas pelos carneirinhos eu chutaria de 15 a 20 nós de vento.

A noite foi boa, velejamos bem (apesar de balançar muito) e não tivemos nenhum rumo cruzado com outro barco. O turno desta vez foi todo meu… A Branca ficou um pouco mareada e achamos melhor ela sossegar na cama. Eu Dormi na sala acordando a cada 45 minutos para fazer minha “ronda”: procurar algo no radar, avaliar a velocidade e nossa rota, sair para ver o mar confirmando que nada temos a frente e regular uma vela se necessário. E assim, de pulos de 45 minutos e sonhos interrompidos a noite correu rápida.

Amanhecemos todos bem e o mar ainda está meio bagunçado e vento segue firme de Sudeste (espetáculo!).

O barco sacode, range… Se contorce, e seguimos firme nosso rumo e parece que toda tripulação já se acostumou com os barulhos do mar. Graças a Deus a previsão acertou na cabeça!

Progredimos muito na nossa rota e mantendo as condições atuais (e as esperadas) devemos aterrar em Porto Rico amanhã no meio da manhã.

To feliz das coisas estarem caminhando bem – na torcida que se mantenham assim! (Ps: depois destas 24hrs de vento favorável zerou o risco da falta de combustível!).

…pra finalizar, os passarinhos se foram. As andorinhas acordaram e saíram voando, já o amarelinho (que meu caçula apelidou de Jack) acordou morto. Foi pro mar virar comida de dourado. Achei que pudesse ter choradeira a bordo, mas que nada os moleques encararam de forma natural e jogaram o bichinho no mar. Vida que segue.

PS: Dizem os meninos que a causa da morte foi um golpe de ioga da mãe, pois na noite anterior o bichano correu o barco inteiro e sem querer foi parar esmagado nas costas da mae enquanto ela se contorcia em uma das posições no solo. De qualquer forma, para mantermos a paz a bordo, prefiro a versao da morte por fadiga de tanto voar.

DIA 3 (Sexta) – 19:00 – 110NM a sul de Porto Rico (Tamo chegando!!!)

O tal vento Sudeste apareceu com vontade de novo à tarde… E junto dele veio um Squall (tempestade) que ligou forte o ventilador e o liquidificador tudo ao mesmo tempo.

Agradeci a todos os santos por termos feito uma rota mais a nordeste-leste no começo da travessia…. Pois agora que a bagunça chegou, tivemos a opção de correr junto com ela (norte – noroeste) sem grande prejuízo à nossa rota. E o que poderia virar um salseiro pouco foi percebido pela tripulação que via mais um filme na sala.

A chuva acabou servindo para lavar o barco e para nos acelerar até nosso destino. Mas não pense vc que foi moleza não… Pois tudo aqui é novidade pra gente e vem tudo sempre acompanhado de frio na barriga e muito suor. Ralei bastante rizando velas, …experimentando a melhor configuração pro mal tempo e ajustando tudo a bordo. Até que fiz pouca barbeiragem (assim acredito)… Um degrau por vez e vamos progredindo.

A tarde também rendeu uma boa pescaria… Desta vez foi um atum de uns 4kg (virou sashimi e morreu a tarde mesmo!)

Enquanto escrevo seguimos firme a 7kts empopado e com as velas risadas. Apesar das condições estarem mais calmas achei melhor ir assim por segurança. Preservando as condições atuais devemos avistar terra amanhã pela manhã…

DIA 4 (Sábado) – Marina Puerto del Mar – lado leste de Porto Rico (chegamos!)

Escrevo estas palavras deitado na cama, de banho tomado, barba feita, sossegado…. e com o Itararé devidamente amarrado em uma vaga na Marina Puerto del Mar.

Dizem que a vida da gente é um eterno quente-frio, …ora você quer à praia …e dela, com calor e suado vc fica com saudade do friozinho da serra, e assim por diante. Eu digo que o mesmo vale também pra vida no mar.

As duas melhores horas de uma travessia são justamente a hora de sair e a hora de chegar, por motivos opostos. A primeira você tá doido pra se lançar na imensidão do mar, ficar perdido entre o céu e as estrelas, no silêncio, em pensamentos e exposto a mãe natureza. O segundo melhor momento é justamente o oposto… Quando paramos de sacudir, e estamos seguramente amarrados em uma Marina, de banho tomado, cheiroso.. De barba feita e lençol recém trocado e esticado ao máximo. Este é meu sentimento agora. Feliz de ter chegado, sentimento de realização por ter cumprido mais um degrauzinho nesta nova fase da vida.

Quente-frio foram também estás 3 noites de travessia… tivemos de calmaria à tempestades… Noites mal dormidas e bem dormidas.

Mas neste último dia a coisa foi mais pro “frio” mesmo dado que o mal tempo cismou em dar as caras e viemos com vento acima de 25 nós (estimo) tanto de dia quanto a noite e mais uma vez o barco bateu e sacudiu muito. Ralamos muito a noite toda em ajustes de vela dado que o vento e mar não sossegaram e por vezes variaram força e direção. Acho que perdi uns 2kg na viagem ao todo… Mas logo que chegamos tratei logo de combater o problema com um hamburgao e três cervas no happyhour da Marina. 😉

Mais pro “quente” é sempre a minha Branquinha, minha alma gêmea – que encarou de frente todos os medos e inseguranças, e não se abalou com mar alto, com a escuridão da noite, com o burrifo das ondas e barulho delas batendo no casco, ou mesmo com a chuva forte lavando até pensamento. Menina danada… amo vc xulé !

Pra finalizar… a primeira impressão que tivemos daqui da Marina e de Porto Rico é a melhor possível – mas isso é assunto para um próximo post. Até !

 

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