Culpo o Governo ou parto para cima ?

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Martinique, 23 de Outubro de 2015.

Há doze meses atrás, não haveria dúvida.

Com o dólar à 2.3 reais, U$250k a gente comprava um belo catamaran de 44 pés e se mandava mundo a fora. Mas em tempos de Dilma com corrupção desenfreada e nossa moeda virando pó ladeira abaixo…. os mesmos R$570mil viraram U$150mil. E nesta cifra o jogo embola, e a decisão de compra fica mais dolorida.

Minha cabeça tem saído fumaça de tanto fazer conta e tentar resolver essa equação furada. A verdade é que não tem solução mágica: ou diminuo o tamanho do barco / “envelheço” ele ou espero um pouco mais e junto mais dinheiro. Simples assim.

Antes dessa viagem, com milhares de dúvidas eu tinha pouca ideia de que barco comprar e depois de ver muita coisa e conversar com vários caras que já viveram a bordo a coisa começou a clarear.

Estou no quinto dia de viagem, já rodei várias marinas de St Marteen e agora Martinique. Devo ter entrado em uns 30 barcos e conhecido uns 15 caras que moraram anos no mar. Inclusive, cheguei à conclusão de que se no Brasil temos um Amyr Klink e uma família Schurmann pra cada 200 milhões de brasileiros….. por aqui, a cada 10 franceses que conheci, 9 são do mesmo tipo.

Cada história desgarrada, com filhos, sem filhos, grávidos, em tempos antigos, recentes, barcos velhos, pequenos, grandes… com dinheiro, pobre de dar dó, tem de tudo!!! E depois de viveram anos no mar e atravessarem vários oceanos sossegam em alguma ilha do Caribe (tipo essa aqui) e vivem como broker, skyper, eletricista, mecânico, chefe de cozinha, instrutores de mergulho,  raspam fundo de barco, administram marinas e coisas do tipo. Ainda vivendo do mar, porém em terra.

Um deles me falou que encerrou a vida a bordo depois de 10 anos pois quando a filha chegou aos quatorze anos começou a pedir pelas coisas da cidade, como internet, lojas, escola… Não teve jeito, ele sossegou para dar a ela um pouco da vida tradicional que ele também teve na França.

Fato é que se no Brasil nosso projeto tem um “q” de raro e “aventuresco”, aqui em Martinique é chover no molhado! Grande aprendizado conhecer e conversar com este tipo de gente, não só pela experiência, mas principalmente para tirar de uma vez por todas o sentimento de que “é uma opção de vida maluca”. Afinal pode ser sim maluca para brasileiro, mas este tipo de vida é muito comum em países com tradição náutica.

Na mesma linha, se no Brasil catamarans são raros e barcos grandes também aqui é impressionante a fartura! Só em Martinique, em uma única baia (Le Marin) deve ter uns 500 veleiros de todas as marcas e tamanhos: vi Leopard 45, FP Orana 44, Belize 43, Bahia 46, Lavezzi, Lipari 4, Lagoons de todos os tamanhos e idade (Lagoons, inclusive, dá por aqui igual a manga no brasil!!), Nautitecs, Catanas, Helia, mas vi também OC50, Cyclades 50, Jeanneau 54, 50 DS… Alubares… trimarans de marcas sofisticadas e outros que nunca ouvi falar. Impressionante !

O bacana desta ilha tem a ver com o perfil do turismo daqui – mais restrito, menos turistico como em ilhas como Bahamas, BVI e st Marteen. Tem muito velejador que vem pra cá justamente pela tranquilidade, e tem também muita empresa de charter pequena focada nesse mercado, com gestão familiar…onde o barco é muito bem mantido e o uso anual é pequeno.

Como a coisa é mais selecionada, muitos dos charters inclusive são com capitão profissional a bordo, fazendo uma mega diferença comparado com o aluguel bareboat (aluguel onde você é o capitão e por consequências faz a barbeiragem e o mal uso que quiser do barco). O resultado disso tudo é que você acha bons barcos a venda por aqui com o perfil deste povo… mais bem cuidado, com menos uso.

Hoje por exemplo, entrei em um Jeanneau 50 pés 2009 espetacular! Barco de charter porém com poucas horas de motor (2.500) e com velas, estaiamento, piso interno, casco tudo impecável. Quanto?! U$180mil. Tá afim ?! Entrei também em um Fontaine Pajot Orana 44, um degrau acima de tirar o fôlego.

Como somos em 4 e nosso plano é seguir do Caribe para o Pacífico pelo meio do mundo (vento alísio), estamos considerando veleiros de 47 a 52 pés  ou Catamarans de 42 a 44 pés. Já Barcos como OC50 ou Jeanneau 50, Leopard 43-45,  FP bahia 46 e FP Orana 44 estão no nosso radar.

Recebi uma aula também de como funciona a depreciação/desvalorização dos barcos de uma forma em geral e me recomendam optar por projetos mais aceitos. Diz o povo aqui que o que acontece com os barcos é mais ou menos o que acontece com nosso mercado de carros: um ano depois da compra de um barco zero ele perde 20% do valor.. e de forma progressiva vai perdendo ate que cinco anos depois ele vale 50% do valor original. E do sexto ano em diante ele tende a perder em media 1% ao ano – obviamente tudo dependendo do nível de manutenção/trato que o proprietário tenha dado ao longo do tempo.

A regra acima, dizem eles, vale para barcos bons. Projetos “piores” tendem a ter soluços mais acentuados e menor liquidez dado a pouca fama do barco no mercado. Deram como exemplo positivo barcos como o Bahia, Belize, Lavezzi… projetos que estão a 10 a 20 anos no mercado. É claro que como estou em uma ilha francesa, os caras vendem mais o peixe dos barcos franceses.

Se o que eles dizem for correto, talvez faça sentido sim investir um pouco mais desde que no futuro a gente consiga revender o barco recuperando a maior parte do valor. Principalmente se no pacote vier conforto, segurança e prazer de viver a bordo.

Com tudo isso na cabeça…  e o garçom aqui me catucando para fechar a conta, passei a apontar meu canhão para o Foutaine Pajot ORANA 44. O valor vai nos esfolar muito mais no curto prazo mas talvez valha a pena. O futuro dirá.

###### Atualizado em abril/2016: Logo após esta viagem – em Novembro, decidimos a compra. Assinamos o contrato do FP Orana 44 ano 2010, um dos barcos que vi nesta viagem. Pagamos o sinal de 10% com o compromisso de quitar a compra em abril/16 mediante a entrega do barco. O barco é de uma pequena empresa familiar de charter e, apesar das 3.500 horas de motor, está impecável e com bom nível de equipamento. Falarei mais sobre isso à frente.

 

 

 

 

 

 

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