Velejando pelo sul de Porto Rico

Tempo de leitura: 9 minutos

Porto Rico, 13 de Dezembro de 2016.

No Brasil, pouco ouvimos a respeito deste belo país. E a verdade é que velejar por Porto Rico foi uma grata surpresa. Mais uma vez compartilhamos aqui trechos do nosso diário de bordo escrito em “tempo real”

13/dez – Terça: Palmas Del Mar – Salinas

Depois de uma semana novamente parado na Marina em Palmas Del Mar, finalmente terminamos as manutenções e pudemos seguir viagem. Desta vez o que nos prendeu foi uma peça que segura a retranca no mastro… achamos uma pequena rachadura nela e preventivamente decidimos reforçá-la.

Tentamos também – sem sucesso – concertar o diabo da catraca eletrica. Desmontamos… enviamos pra reparo e nos deram o diagnóstico: $800 dólares pra trocarmos a engrenagem que cola no motor (gearbox). Além da dor no bolso, doeria também ter que esperar mais tempo a peça chegar dado que nosso tempo tá ficando apertado pois precisamos seguir viagem rumo a Turks & Caicos para o Natal. Com dó e com os braços preparados decidimos seguir viagem sem nossa amiga automática funcionando.

Pra você aí que nos lê, talvez uma catraca elétrica te pareça um luxo. Eu também não sentia falta dela quando velejava no Brasil no nosso saudoso LAFITTE. Mas hoje já acho que ela mais parece um item de segurança a bordo – principalmente para um barco deste tamanho. Mais ainda pois no nosso caso quase sempre velejo sozinho (com o povo dormindo ou dentro do cockpit) – e facilita muito minha vida a amiga automática subindo e descendo velas deste tamanho.

O previsão do tempo mostrava um mar de 2m acompanhado de vento de 20 nós com rajadas de 25. Decidimos seguir viagem pois nosso rumo pegaria esse mar de cara por pouco tempo e logo teríamos ângulo para virar o barco e seguir com tudo a favor contornando a ponta sudeste de Puerto Rico.

E assim o fizemos. O ITACARÉ novamente mostrou sua valentia encarando mar de cara e voando nas ondas. A chuva teimou também em aparecer temperando ainda mais nossa partida.

Uma hora depois do sacolejo, mudamos nosso rumo ao sabor do arco íris que se formou ao nosso lado… seguimos empopado a quase 9 nós com um mar mostro crescente atras da gente.

Por vezes as ondas passaram a altura do nosso painel solar… a visão delas vindo dava a mesma sensação de quando estamos na praia e avistamos o paredão de agua vindo a nos engolir. A diferença é que por aqui o ITACARÉ sobe o paredão de costas e desce surfando meio rebolando pra repor o rumo.

Ancoramos seguramente meio da tarde em Salinas, uma pequena enseada muito bem abrigada no meio da ilha (no lado sul), rodeada por mangues e habitada por vários peixes-boi. Aproveitamos o fim de tarde para uma remada no stand up, e ao entrar da noite de lua cheia a viola rolou solta na proa. Dia espetáculo!

14/dez – Quarta: Salinas – Isla Del Muertos

Dormimos a noite dos deuses, nos fazendo lembrar da amada Paraty tamanho sossego. O vento zerou fim da tarde ontem e nossa ancoragem virou um espelho refletindo o céu e as estrelas. Como Porto Rico é grande e tem morros altos sempre no começo da noite vem um vento da terra (terral) anulando quase por completo o vento alisio sempre nos gerando noites calmas.

Acordamos cedo com o barulho dos peixe-boi pulando a volta do barco. Engatamos no homeschooling por duas horas e logo depois subirmos as velas rumo a Isla del Muertos a três horas de distância seguindo nossa viagem rumo ao lado oeste de Puerto Rico.

Velejamos a velejada dos sonhos com mar mediano e ventão. O ITACARÉ de novo deslizou empopado lindamente em um rumo direto até nossa chegada. Bati altos papos com meus moleques enquanto velejávamos. Curiosos me perguntam sobre tudo e me pediram pra contar várias histórias. Hoje engatei uma quarta marcha e puxei desde de lá do império romano até a 2a guerra mundial. Bacana. Cheguei a ficar com a garganta doendo. Muito bacana esse convívio diário e intenso com muita troca de ideias e aprendizados. Este é mais um dos grandes prazeres da vida a bordo.

Na nossa chegada a Isla del Muertos demos um jaibe para contornar a ponta da ilha e viemos caçando a vela (recolhendo vela) a medida que fomos dando o traves pro vento. O ITACARÉ voou batendo quase 13 nós mesmo com vela rizada. Espetáculo este barco!

15/dez – quinta: Isla Del Muertos

Logo cedo o veleiro brasileiro Alaússa do amigo Léo pintou na nossa ancoragem. Muito bom conhecer novos amigos e reencontrar brasileiros. Já tínhamos nos falado pelo facebook várias vezes ao longo do ano mas foi só agora que nossos caminhos se cruzaram. Eles vieram subindo a costa depois de longa estadia na República Dominicana e estao seguindo a leste em direção às USVI e BVI – e nós estamos fazendo o caminho ao contrário descendo a oeste para subir para TURKS.

Depois das apresentações regada a cafezinho com pão recem feito pela Branca seguimos de dinghy pra praia e de lá fizemos a trilha até o farol. Muito bacana a vista da região. Emendamos famintos em um bom barbecue no ITACARE para depois das despedidas cada um seguir seu caminho.

Boa sorte amigos! Foi um prazer conhecê-los!

16/dez – Sexta: Isla Del Muertos – Guilligan

Levantamos ferro logo após o homeschooling e aproveitando o vento leste perfeito de vinte nós com mar pequeno e seguimos empopado em asa de pombo por três horas avançando mais a oeste. Ancoramos no começo da tarde em frente a um belo resort em Cayos de Cana Gorda – mais conhecido pela ilha de Guiligan. Já estamos no meio de P. Rico.

Apesar da velejada perfeita… no final cometi um erro e quando fui baixar a vela mestra a bichana arrastou na beirada do lazyjack e fez um rasgo de meio metro. Uma bosta. Rasgou igual papel… mostrando que em breve teremos que soltar o camarão e investir em velas novas antes de voos maiores.

Entre mortos e feridos vamos aproveitar o dia parado amanhã para fazer os devidos reparos. Ainda bem que compramos bastante reparo de vela com cola para facilitar nossa vida.

17/dez – Sábado: – Guilligan

Apesar desta ancoragem ser um pouco desconfortável dado uma esteira de mar que teima em balançar o barco de lado – o belo resort em frente com Wi-Fi gratuito nos convida a ficar por aqui um dia.

Reparamos a vela cedo pela manhã e encontramos cinco rasgos de diferentes tamanhos. Essa vela realmente está em fim de vida… mas com o reforço que demos talvez de pra ir levando mais um tempo.

Logo depois seguimos de bote pro pier do hotel e por lá passamos o dia. Ver o ITACARÉ ancorado a distância… tomando uma gelada no bar do resort não tem preço!

18/dez – Domingo: – Guilligan – Cayo Henrique  (La Parguera)

A previsão do tempo se confirmou e o vento alísio soprou forte meio da manhã. Viemos voando só de genoa e com um motor ligado – ligamos pra fazer água pois nosso tanque ja estava no final.

Nossa ancoragem fica dentro de uma pequena Bahia repleta de pequenas nas ilhotas de mangue e de recifes. Um labirinto! Tanto a carta da navionics quanto a da Garmin por vezes se mostraram erradas neste mar de recifes.. e viemos mesmo na navegação visual com a Branca lá na frente me ajudando a rebolar por entre os recifes. Chegar ou sair à noite daqui é catástrofe na certa.

Pegamos uma mooring bem abrigado entre recifes e a medida que o vento sossegou e o terral chegou o visual a volta foi ficando mais agradável mostrando a beleza do lugar. A noite escura com céu limpo fez Vênus brilhar mostrando também incontáveis estrelas.

Tá chegando a hora de seguirmos pra turks… com olho firme na previsão do tempo seguiremos amanhã pra nos posicionar na última ancoragem antes de partir em definitivo.

19/dez – Segunda: Cayo Henrique  (La Parguera) – P. Real (lado oeste de P. Rico)

A previsão do tempo errou e só tivemos calmaria hoje nos obrigando a vir motorando por três horas até Puerto Real – uma pequena enseada já no lado oeste da ilha.

Ao cruzarmos a ponta oeste de P. Rico demos de cara com um navio da guarda costeira. A distância ele nos seguiu por um tempo mas depois soltou dos botes velozes cheio de policiais na nossa direção. Ao se aproximaram tocaram uma buzina alta e vieram nos abordar.

O povo a bordo ficou um pouco apreensivo afinal está foi nossa primeira vez sendo abordado no meio do mar. Por uns 20 minutos vasculharam tudo a bordo, olharam validade de equipamentos, olharam porões a procura de drogas, nos fizeram várias perguntas e verificaram nossos papéis. Lembrem-se que aqui é os EUA com jeito latino, logo o approach foi sempre extremamente profissional e amigável.

Encerrado os procedimentos fomos liberados sem nenhum problema. Muito saber que estes caras estão sempre por perto monitorando o canal 16. Pena que nem todo país que passaremos tem este nível de suporte.

Este é nosso último relato sobre Porto Rico. Já estamos com tudo preparado e devidamente posicionados para nos lançarmos em direção a Turks & Caicos amanhã pela manhã. Teremos vento de 15 a 20 nós e mar de 2,5 metros com onda, vento e corrente a favor.

A previsão se confirmando deveremos navegar a 7,5 nós e percorrer as 400 milhas náuticas em dois dias e pouco, passando pelo norte da República Dominicana e a sul dos bancos. Temos que ficar ligado nas baleias pois elas descem até a Rep. Dominicana nesta época do ano.

Até breve!

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.