Dois meses pelas Bahamas

Tempo de leitura: 9 minutos

Bahamas, 24 de Março de 2017.

A vida segue seu ritmo calmamente a bordo, cada vez mais a oeste, um dia por vez. Depois de Turks & Caicos subimos as velas e seguimos para as Bahamas, ilha por ilha, sem pressa… desbravando cada dia uma nova ancoragem. 

 Já estamos “oficialmente” fora da região dos ventos alísios, dado nossa latitude já ser fora dos trópicos, quase beirando a ponta da Flórida. Pra você que esqueceu a aula de geografia no 2o grau: vento alísio = aquele vento que rola no meio do mundo… resultado da rotação da terra, lembra?!

Conclusão, por aqui o vento não vem só de um canto. Aqui o alísio influência bem menos do que no meio do Caribe e o que orquestra mesmo o clima são as frentes frias.

Como estamos no inverno elas são muito comuns nesta época do ano se fazendo presente quase que semanalmente. (Sim, aqui é inverno. não esqueça que estamos no hemisfério norte).

Antes da frente chegar temos sempre dias espetaculares de sol, vento agradável de Sudeste a Nordeste (<15 nós) e mar pequeno (<1m). Uns dois a três dias antes da frente chegar o tempo para… calmaria em mar aberto, mar de azeite… água cristalina de chorar.

Mas depois que a bicha chega bagunça tudo derrubando a temperatura, levantando mar e fazendo todo mundo se abrigar. E dependendo do quanto perto a frente conseguir chegar (descer)…. o vento pode entrar forte de sul ou sudoeste. Mas se ela passar muito lá ao norte e pegarmos somente o rabo dela o que sopra mesmo é um nordestão danado. Enfim, esta nova rotina tem sido um ótimo aprendizado.

O ritmo das frentes fria tem ditado também o ritmo das nossas velejadas. Temos sempre mantido uma rotina de cinco a sete dias legais navegando tranquilos seguidos por dois a três parados, bem abrigados, cheio de ferro na água e vento apitando… esperando a frente passar.

Hoje por acaso, enquanto escrevo, tem mais uma bagunça passando por aqui. Lá fora o vento apita a quase 40 nós esticando os cabos e fazendo o ITACARE ranger. Nestas horas o que mantém nossa paz são dois remédios: a prudência e o exagero.

Primeiro valeu cada centavo que investimos no jogo de âncora e corrente novinhos que compramos no começo da nossa jornada. Segundo, largamos 45 metros de corrente pra 2m de profundidade.

“Exageraaaaaado!”, é o que você deve estar pensando.

Pode me esculhambar, mas aqui no ITACARÉ temos um ditado que rege nossas ancoragens: “Corrente boa é corrente na água. E corrente no paiol não serve pra nada!”.

Logo nunca economizamos e por vezes jogamos duas, três, quatro vezes a mais do que manda a regra e sempre buscamos ancoragens rasas e com bastante espaço para acomodar nosso exagero. E se não tiver espaço? Simples… mudamos de lugar. E aqui nas Bahamas o que não falta é ancoragem boa.

Lá fora o pau tá quebrando, mas aqui dentro tô enrolado no cobertor tranquilo com meus dois bagrinhos agarrados aqui comigo.

E por falar em bagres…

Nestes últimos meses embalamos firme no hábito da leitura e toda noite os moleques pegam seus livros e vem ler na nossa cama até cair de sono (enquanto isso a mãe faz a ioga na paz lá em cima). Valeu muito a pena ter montado uma extensa biblioteca de livros digitais antes de sairmos do Brasil.

Li recentemente a biografia do Guga, depois a do Agassi.. e agora tô terminando a do sniper americano. Vidas extremamente opostas – que fazem a gente pensar. Os moleques tem lido o Diário de um Banana e outros de uns bonecos que não sei o nome.

Outro hábito que embalamos também foi o carteado várias vezes a noite (Buraco). .. a coisa tem sido disputada com uma rivalidade crescente. ..tenho feito dupla com meu caçula e a coisa tem ficado feia pro nosso lado. Nunca perdi tanto na minha vida! Fico puto! Estamos treinando bastante os moleques para eles surrarem as avós que estão vindo em breve nos visitar.

A homeschooling segue no ritmo da frente fria… de vez em quando vem, de vez em quando vai. Faltam três meses para fechar o ano letivo americano, porém na prática estamos na lição 60 de 160. Cheguei a montar uma planilha… mas meu tempo de bater meta ficou na minha vida anterior.

Acredite você, é um baita desafio manter uma disciplina diária dado tanto estímulo em volta da gente e visitas que vem e vão.  E na vida a bordo os dias da semana se misturam com finais de semana e os meses viram embaralhados. Eu guardo de cabeça que vento está vindo e o horário da maré mas confundo os dias e esqueço em que ano estamos. Chegamos a conclusão que quebrar o ano em meses e os meses em semanas só serve pro povo da cidade.

Por aqui o tempo poderia ser contado de outra forma.

Decidimos montar nosso próprio calendário e seguirmos nosso próprio ano letivo. Primeiro decidimos que todo dia é sábado e que sábado sim, sábado não tem que ter estudo. Depois acrescentamos uns sábados que são feriado de São ITACARÉ… e todo mundo fica na moleza (principalmente os professores!). E por fim acabamos com as férias escolares. Afinal, pra que férias neste nosso estilo de vida?!

O único detalhe é que minha cervejinha só posso beber a cada 7 sábados… senão a coisa descaceta de vez!

Brincadeiras à parte, a conclusão deste assunto é que decidimos que desde que as crianças mantenham-se sempre estudando e fechem tudo dentro de 12 meses… tá tudo certo! Portanto vamos encerrar o ano letivo até setembro e já engatar de bate pronto no ano seguinte.

Aqui nas Bahamas temos tido dias espetaculares em lugares incríveis, incontáveis, indescritíveis. Já estamos a quase três meses navegando por aqui…. e poderíamos passar mais uns dois anos e ainda teríamos muita coisa pra fazer.

Já passamos por diversas ilhas, várias completamente desertas, algumas abandonadas como em um cenário de Walking Dead, outras destruídas e arrasadas devido aos furacões. Vimos praias espetaculares, bancos de areia branca e fina, coqueiros, trilhas, águas cristalinas com diferentes tons de azuis. Sem dúvida, estas tem sido as ancoragens mais fantásticas das nossas vidas (até aqui, é claro!).

Às vezes achamos que já vimos tudo… mas logo que mudamos para uma nova ancoragem somos novamente surpreendidos com mais uma obra espetacular da mãe natureza. Se por cima é um espetáculo, por baixo também não fica atras.

O volume, a qualidade e o peso da nossa pescaria cresceu absurdamente e nosso cardápio passou a ter constantemente frutos do mar. Várias vezes matamos dourados de diferentes tamanhos e outras vezes pescamos atuns.

Não fique bravo… mas lagostas e conchs (um molusco que cresce dentro de uma concha grande) também passaram a fazer parte do cardápio. Temos variado também a culinária experimentando diferentes preparos: frito, ensopado, na moqueca, no barbecue, sushis, ceviches e por aí vai.

É, a vida tá bem dura.

Aqui pelas Bahamas os nossos vizinhos também mudaram: acima do mar, barcos canadenses e americanos são os que dominam as ancoragens. E abaixo, a companhia de tubarões, arrais e barracudas ficaram muito mais frequentes.

Por incrível que pareça é comum você caminhar na beira da praia e uma arraia vir te catucar o pé em busca de comida… e muito normal também você ancorar o barco e se dar conta que tem um tutuba zanzando por perto patrulhando.

Eles também sempre se aglomerarem em volta das marinas na expectativa de pegar uma rebarba de algum resto de peixe recém limpado pelos pescadores.. momento que passamos a ter uma boa ideia do quanto agressivo e rápido estes bichos são.

Estes encontros passaram a ser tão rotineiros que rapidamente aprendemos a reconhecer os vários tipos de tutubas – seja pelo formato da cabeça, desenho do rabo ou altura e cor das barbatanas. As barracudas então nem se fala…. essas são moradoras fiéis descansando na sombra do nosso barco.

Algumas são tão grandes que parecem um tronco de árvore. No começo a gente estranha, ficando um pouco apreensivo… mas depois a gente se acostuma ficando até mais abusado. As arraias e barracudas são parceiras, zero risco…. nadamos sempre com elas.

Mas com os tutubas temos sempre uma relação mais processual e regrada.

Primeiro evitamos mergulhar fim de tarde pois é nessa hora que eles ficam mais ariscos. Segundo, sempre quando mergulhamos ficamos com um olho no peixe e outro no gato. E por fim, se dermos de cara com o “peixe” o tipo dele vai determinar a velocidade que saltamos da água pro bote encagaçado.

A coisa é mais ou menos assim: Se for o Nurse Shark (o Lixa) – chegamos mais perto e batemos foto. Se for o Reef Shark, Black Tip ou o Lemon – fico de olho monitorando, mas o estômago da uma contraída. Mas se for o Bull (Touro) – pulo logo pro bote por extinto. Dizem que por aqui tem o Tiger (tigre) e o Hammer (Martelo), mas estes ainda não tivemos o prazer de conhecer.

É isso amigos, nos próximos dias continuaremos subindo ilha por ilha, por mais 45 dias… rumando sempre a noroeste até chegarmos nos EUA. E de lá subiremos a costa leste até Maryland, mas isso é assunto para um próximo post.

Até!

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