O Itacaré é nosso

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Barbados, 1o de Maio de 2016.

Escrevo estas palavras de dentro do avião da Gol, em algum lugar entre Barbados e São Paulo. Lá embaixo, o mar do Caribe azul como nos sonhos. Na cabeça planos, pensamentos, angústias variadas, oscilando entre muito animado, determinado e preocupado. Será que to ficando bi-polar ?!

Dá para explicar a ansiedade pois essa foi a semana mais esperada dos últimos 5 meses – a semana da vistoria (survey) e posterior assinatura definitiva da compra do nosso tão sonhado barco-casa. Fortes e intensas emoções.

Vim a Martinica novamente sozinho de mochila nas costas, euro no bolso e fone nos ouvidos, deixando a galerinha em SP (talvez mais ansiosa do que eu) à espera de notícias.

Tudo estava agendado há meses, vistoriador (surveyor), a subida do barco (hauling), o seguro, a documentação..   tudo certo – só faltava eu chegar para acompanhar.  E não é que o diabo do voo atrasou na ida fazendo com que eu perdesse a subida do barco no estaleiro …desgraça !

Angustiado, do aeroporto contei as horas como um pai que perde o nascimento do filho. Cheguei muito atrasado e o bichão já estava de novo na água. Tudo bem… vi ele por baixo através das fotos, e no dia seguinte fui as forras no sailtest (velejada para testar o barco). A barcaça deslizou lisa nas águas azuis do Caribe complementando a paisagem e eu em cima com sorriso de orelha a orelha fotografando tudo.

Minha primeira noite a bordo foi conturbada, com sono intercalado. Lá fora tudo parado, sem vento, barco seguramente atracado na Marina em Le Marin. Dentro da minha cabeça um turbilhão de pensamentos.. passou um filme dos últimos acontecimentos.

Me lembrei dos últimos anos, quantos planos e etapas para chegarmos até ali; confrontei medos imaginando um barco daquele tamanho sendo navegado por mim, mulher e filhos pequenos. Sonhei que faltava dinheiro e tinha que interromper tudo no meio. Veio até aquele sentimento de “caramba, o que que eu to fazendo aqui??”, tu acredita?! …mas esse último aí passou rápido como um suspiro.

Lembrei também de quando troquei de moto e pulei da minha magrelinha de 250cc para minha velha amiga Cavala de 1200cc que nos levou vitoriosa até o Atacama. A primeira vez na estrada a gente nunca esquece. Meu anus foi trancado e o estômago contorcendo a cada acelerada da Cavala desafiando o barulho do vento. O sentimento é idêntico dado que migramos do velho amado Lafitte de 36 pés para essa criatura imensa de 44 pés e 7,20 metros de largura.

Como diria meu querido irmão Tete,   ” ..quanta sofrência!!” :))

Esse projeto aqui realmente é como um vídeo game (já falei isso antes), você vai mudando de fase e a coisa vai ficando mais difícil, principalmente emocionalmente. Só peguei no sono mesmo depois que abri meu IPad e por horas listei mais umas cento e cinquenta coisas que vou fazer nas próximas 8 semanas. Engraçado que meu estômago só acalma se eu escrever e planejar, acredita? …depois durmo quenem um bebê.

Entre os planos o principal tem a ver com a ida do barco daqui a 3 semanas de Martinica para Curacao. Já reservei a vaga na Marina por lá (bate no Google aí.. Seru Boca Marina) e contratei um capitão experiente que conhece bem o barco e já velejou inúmeras vezes em catamaran.  Esse cara será meu professor na minha primeira travessia, sendo a melhor forma que encontrei de ampliar o conhecimento no curto prazo que tenho antes de desembarcar em definitivo com família, mala e cuia a bordo. Mas isso é papo para um próximo post.

Vamos falar um pouco sobre a caranguejola….

Nosso barco é uma jaca-manteiga, imensa, linda.. especial. Muito espaço para guardar tralhas, receber visitas, fazer churrasco, carregar sonhos e apetrechos. Dois motores volvo de 40HP empurram a criança pra frente facilmente a 7 ou 8 nos.

Dentro 4 cabines espaçosas, cada uma com um bom banheiro. Ele já vem equipado com radar, GPS, rádio, outras tralhas, watermaker (dessalinizador) e bote de 3m com um forte motor de 15HP (os moleques vão adorar).  Pra morar a bordo – além de toda a parafernália pra casa (panelas, travesseiros, etc.) faltam também os painéis solares para ajudar na autonomia e aliviar o bolso.

A vistoria confirmou a integridade de casco, velas e eletrônicos, sendo a única ressalva (que o seller vai resolver por conta dele) é a troca do estaiamento da frente (cabo de aço que segura o mastro / e a vela da frente – a genoa). Tinha um cabinho de aço partido no meio dos demais. Tudo bem que o desgraça do vistoriador recomendou que eu aproveite o embalo e troque os demais estais por segurança. Para desespero do nosso bolso, devemos atender a sugestão em breve.

Nosso barco também ganhou nome..  ITACARÉ, como você bem sabe. Logo no primeiro dia contratei uma empresa que o adesivou lindamente. E não podemos deixar de agradecer principalmente a nossa amiga Sandra, de SP – criadora do logo. Valeu amiga!! …sua obra ficou um espetáculo!!

Abri uma cerveja pra comemorar a assinatura do contrato (uma não, várias!) e no fim do dia até brinde de champagne francesa rolou patrocinado pelo dono da empresa que nos vendeu o barco. Inclusive, povo gente boa o daqui… sempre atencioso e gentil. E anote aí o nome do broker, caso você também seja meio desajustado: Frederic e Dominique da A&C Broker em Martinique, e Marie-Claire da Caribbean Multihulls de Saint Marteen

“Merci my friends!!”

Chega de falar e vamos a algumas fotos que talvez retratem melhor tamanha sofrência.

PS: Caramba, amanhã já retorno ao trabalho! Acho que já vou comunicar nossos planos logo na chegada… Jeeeesus.., como vai ser isso ?! Preciso virar logo essa página e tirar essa duvida da cabeça!

 

 

 

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