Navegando pelas Ilhas a leste de Porto Rico (Parte II)

Tempo de leitura: 7 minutos

Seguimos desbavrando as ilhas de Porto Rico – Vieques, Culebra e Culebrita. Também conhecidas como Ilhas Virgens Espanholas. 

 

Dia 6 – 24/Nov – Ensenada Honda, Vieques (PR)

O sol deu as caras hoje e junto dele o ventilador ligou também… a frente fria já dissipou e o vento alísio retomou o seu lugar com força. O leste entrou firme bagunçando tudo a volta não nos convidando à nos lançarmos ao mar, pois é justamente contra ele que temos que seguir. O ideal seria ficarmos quietos aqui por uns 2 a 3 dias esperando o vento acalmar, mas infelizmente não vai dar.

Estamos há 2 dias sem previsão do tempo pois aqui não chega sinal de celular. Em uma situação normal não seria problema pois baixamos o forecast de 7 dias antes de sair, mas o que nos gera a dúvida e ansiedade é que na última vez que vimos a previsão, mais um furacão tinha acabado de ganhar força no Caribe.

Este agora armou no sul próximo a costa do Panamá/Nicaragua… e dias atras o rumo dele era uma incógnita. Saber para que lado o bicho vai virou uma das nossas principais preocupações.

Depois de um rápido debate a bordo decidimos seguir viagem. Ficar aqui isolado do mundo sem ter notícias do tempo pode vir a se tornar um problema ainda maior. Vai que o desavisado resolve subir a nordeste passando perto de Porto Rico assim como o último.

Levantamos âncora, subimos as velas e pau na máquina! Pegamos por duas horas o maior mar que vimos até aqui. Como a costa sul de Vieques é bem rasa (<15m) o leste empurrou um mundo de água com vontade fazendo o mar subir com ondas de até 3m desencontradas. De novo o ITACARÉ pulou feito cabrito fazendo ranger a fibra e mais uma vez nossa jovem tripulação foi testada.

Seguimos firme contra mar, vento e corrente andando a 4 nós por quase duas horas. A bordo o povo seguia calmo contemplando o burrifo das ondas explodindo no casco e não se intimidando com o mundo de água que as vezes atropelava a frente do Itacaré. “Papai, você acha que essa aqui tem mais de 3 metros?!”, eles se divertiam medindo e procurando as maiores ondas.

Bacana ver que alto mar deixou de ser novidade, mesmo em uma situação mais desconfortável. Como tudo na vida… a gente também se adapta e acostuma com o alto mar.

Horas depois o sacrifício virou prazer, pois quando chegamos na ponta leste da ilha viramos nosso rumo para o norte. E o vento e corrente que há pouco nos atrapalhavam, viraram nossos aliados nos empurrando rumo a Culebra. O ITACARÉ voou de asas abertas com ventão de través chegando a bater 10 nós mesmo com velas rizadas (reduzidas). Um espetáculo!

Nestas 4 horas tivemos vários ataques na nossa linha. O primeiro foi logo na saída e a linha chegou a arriar a varinha de tanta pressão… e depois de muita luta trouxemos metade de uma barracuda a bordo. A outra metade acho que ficou na barriga da mamãe tubarão…. e a pressão na vara foi justamente o cabo de guerra para ver com quem ia ficar o peixe.

Depois puxamos um xaréu de bom tamanho e na mesma linha veio junta outra barracuda. Mas o maior e mais pesado ataque veio quase no final. A carretilha disparou acelerada aos berros sem parar. Deixei correr…. e depois lutei firme com todas as forças quase sem conseguir enrolar a carretilha tamanha a pressão. Pouco depois a linha afrouxou…. recolhemos, mas desta vez a isca voltou inteira, foi ponto pra eles. Uma pena. Esse era dos grandes. Nem preciso dizer que cada ataque e ziiim da carretilha a tripulação mirim vai loucura aos gritos de “sushi, sushi, sushi!!”

Chegamos em Culebra começo da tarde e ancoramos a 4m de profundidade no fundo da Ensenada Honda junto de várias outros veleiros.

Mal chegamos e já fomos pro dinghy Dock de bote procurar o happyhour local e fazer um reconhecimento na vila que fica em frente.

Já na chegada fizemos amizade com uma família da Alemanha e outra dos EUA. Depois de dias sem ver civilização – e apos um mar como esse, uma cerveja gelada sentado em um boteco vale ouro!

 

Dia 7 – 25/Nov – Ensenada Honda, Culebra (PR)

Hoje nosso dia foi em terra, sem relatos náuticos. Acordamos cedo e engatamos na homeschooling e logo depois montamos nossas bikes dobráveis, fomos de bote pro pier em frente e pedalamos praticamente o dia todo a ilha de Culebra. Depois de dias no mar, aproveitar a terra firme tem o seu valor.

E rodar a ilha de bike com os moleques na garupa foi um barato.

Devemos ficar aqui mais uns dias antes de novamente nos lançarmos para as ancoragens ao redor.

Dia 11 – 29/Nov – Culebrita (PR)

Levantamos âncora e seguimos viagem para Culebrita, uma pequena ilha que fica em frente à Culebra, 20 minutos de onde estávamos.

Impressiona a quantidade de peixes grandes que tem por aqui.. falei sobre isso dias atras quando experimentamos a pescaria de linha, mas agora foi a vez de ver tudo de perto a olho nu mesmo.

Na ancoragem em Culebrita dois grandes anemuras (?!) ficaram por horas nadando debaixo do barco – acho que são aqueles peixes-piloto que agarram nos tubarões. Eles são esquisitos, de cabeça chata… e parecem que foram feitos ao contrário de cabeça para baixo. Nadam rápido, nervosos… e acho que tem mais de 1m cada um. Não sabia que esses bichos podiam ficar tão grandes.

Grande também é a quantidade de barracudas que tem por aqui… como o povo não gosta delas por causa da cigaterra… elas reinam e aparecem em cada ancoragem para fiscalizar o que tem por perto. E a bicha é danada e territorial.

Hoje quando estava pegando lagostas uma das grandes deu de cara comigo e ficou me cercando pra onde eu ia. Quando recuei para o bote a danada veio atras me farejando como um cão de caça. Eu estava sem o arpão e cheguei a ficar preocupado… mas depois voltei armado para ver o que a bicha ia fazer… vez ou outra eu nadava na direção dela e ela recuava um pouco para minutos depois vir na minha direção me encarando cheia de dente.

Como não da pra comê-la deixei quieto e retornei pro barco pois já estava entardecendo…  (e tava desagradável ficar de costas afundado entre recifes com uma bichana destas me cercando).

Pegamos também nossas primeiras lagostas da viagem. Uma fizemos na churrasqueira, as outras duas (menores) fizemos como entrada cozinhando na panela com água e depois passando no azeite na frigideira. Espetáculo!

Nestes últimos 4 dias experimentamos várias ancoragens ao redor… Culebra e Culebrita são cheio de cantinhos bacanas de água cristalina.

Mas a ancoragem mais bonita acho foi a da praia principal em Culebrita – uma pequena praia linda de água turquesa, rodeado por recifes e coqueiros. Valeu muito também fazermos a trilha até o farol no alto morro.

 Dia 12 – 30/Nov – Ensenada Honda, Culebra (PR)

 

Retornamos há pouco para Ensenada Honda na ilha principal para repor os mantimentos, comprar gasolina para o dinghy e encher nossos galões com água potável – momento em que escrevo estas palavras e aproveito a internet para publicar mais um post.

Hoje pela manhã participamos de um aniversario de 6 anos de um menino americano de um barco vizinho. A festinha foi na praia e outros velejadores também participaram.

Nossos filhos se esbaldaram nos doces e nas brincadeiras com as outras crianças. Muito bacana a simplicidade e naturalidade da vida a bordo.

Já estamos de olho na previsão de tempo pois nas próximas semanas devemos seguir viagem para República Dominicana – ou talvez direto para Turks & Caicos – umas ilhas paradisíacas a 450milhas a nordeste daqui, já colada nas Bahamas – local onde passaremos o Natal, Ano novo e o mês de Janeiro.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado.