O lado A

Tempo de leitura: 7 minutos

Bonaire, 14 de Setembro de 2016.

Enquanto escrevo estas palavras, ouvi o ronco de uma motoca passando a distância (o povo de Bonaire adora motoca barulhenta!). Imediatamente me lembrei de meses atrás quando me embrenhava todas as manhãs entre outros motoqueiros pra ir até o trabalho pela estressante Av. 23 de Maio em SP. Tempos de muita ansiedade que ficaram pra trás.

Nesta época eu olhava todos os dias pro sol e pedia pra chegar o momento de mudar de vida. Pois é, hoje estamos aqui. O céu estrelado aqui acima é minha testemunha enquanto penso e escrevo.

Hoje conversei com minha amada sobre nossa rota e próximos passos.

A conversa foi para um lado foi para o outro e encerramos com um belo esboço do caminho que devemos seguir nos próximos 6 meses.

Devemos ficar o mês de Setembro inteiro por Bonaire, Outubro devemos fazer um bate-volta em Curaçao por duas ou três semanas e depois aguardar de Bonaire o fim da temporada de furacão. Fim de novembro devemos seguir para República Dominicana e por lá virar o Natal e Ano Novo.

Temos lido muito a respeito de lá, e apesar da má fama dos caras da imigração, a geografia do lugar mistura morro, floresta, rio, mar e simplicidade – a primeira vista (digo, leitura) nos lembrou da nossa amada Paraty.

Em Janeiro nosso porto seguro será em Turks & Caicos – uma ilha mais acima colada nas Bahamas. E depois devemos descer contornando o Haiti e a Rep. Dominicana rumo à Porto Rico e Ilhas Virgens. Dai pra frente o tempo dirá, mas provavelmente devemos pingar de ilha em ilha rodando o leste do Caribe.

Tanta gente fala de tanto lugar muitas vezes com opiniões cruzadas que decidimos deixar a viagem seguir seu ritmo naturalmente já sabendo que vez ou outra vamos sim mudar de opinião sobre que rumo seguir.

Este mês é nosso terceiro mês vivendo no mar…. Vou tentar resumir para vocês nossas impressões. Não fique bravo comigo, mas a sofrência diminuiu muito..  dando lugar a dias cada vez melhores.

Vamos começar pelo lado A…

Já vimos mais por do sol e contamos mais estrelas do que nos últimos dez anos. Nos acostumamos a dar vários mergulhos ao longo do dia sendo que o primeiro do dia e o último a noite são os mais legais (o último inclusive vai peladão mesmo :).

Já vi milhares de filmes com meus filhos, já li vários guias náuticos do Caribe aprendendo bastante sobre as rotas e lugares. Parei de emagrecer pois a Branca tem caprichado na cozinha do Itacaré e tem feito um pãozinho espetáculo. Meu corpo já se adaptou e as dores sumiram. Sumiram também as preocupações com o futuro e meu cérebro agora pensa e processa um dia por vez.

A visita à sorveteria passou a ser um dos nossos programas favoritos e acostumamos a chamar esse lugar de “nosso escritório”. Por vezes ficamos por horas sentando “trabalhando” em um belo sovervete, aproveitando o ar condicionado e curtindo o momento. E assim, de forma natural a vida vem se tornando simples e feliz.

Passei também a notar detalhadamente o crescimento dos nossos filhos, inclusive centímetro a centímetro. A impressão que temos é que os moleques já cresceram mais de um palmo desde que chegaram aqui. Estamos assustados com o tamanho do pé, dos braços cumpridos… ta tudo ficando graúdo e já to com dificuldade de carregá-los a noite para suas cabines depois que dormem assistindo um filme.

Com o convívio diário e intenso passamos a perceber também detalhes sobre a personalidade de cada um, suas necessidades – cada um do seu jeito, detalhes que antes passavam despercebidos. Vez ou outra fazemos um bate papo que chamamos de sessão “Share your feelings” … E todo mundo conta as coisas legais e ruins que estão sentindo. Veja aqui embaixo o que saiu do último bate-papo:

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Bruno (7 anos)

Coisas que vc esta gostando?

“Amigos, Família toda o dia junto.. Gostando de ficar toda noite vendo a lua… Mergulhar todo dia. Todo mundo usando snokkel. Ver peixes grandes muito de perto… Ir ao restaurante às vezes, e comer sempre a comida deliciosa da mamãe. De brincar e ficar do lado do Papis”.

O que te incomoda ?

“Vento contra. Quando a gente briga. Quando papai me joga na água. Quando o Lucca fica me batendo. Quando a gente quer ir em uma loja muito legal mais ela está fechada. Quando alguém da topada no barco… Pois fica roxo, fica doendo. Tipo seu dedão né papai”.

 

LUCCA (8 anos):

..gostando ?

“Quando a gente muda os planos para ir a favor do vento ao invés de contra. Quando a gente sai para fazer happyhour, gosto da família toda junta.  Quando o Bruno fica um dia sem me bater. Gosto de ter os amigos do mar”.

Não está gostando ?

“Quando o Bruno me bate. Quando não tem pão em casa. Quando eu fico com fome. Quando a gente compra batata frita e meu pai pega duas por vez.  Quando eu peço pro meu pai pedir uma coisa no restaurante e ele não deixa (tipo agora! … Posso pedir outra batata papai?! … Não filho)”.

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Enfim, acho que a fala deles resume muito bem nossa vida a bordo até aqui: simplicidade, intensidade no convívio, liberdade de rumar pra onde quiser, sentir a natureza diariamente no céu estrelado, na lua nascendo, no por do sol. Happyhours semanais… e vários amigos do mar.

E sobre amigos do mar vale aqui um pouco mais de detalhes.

Já conhecemos várias famílias e casais velejadores de todos os tipos e idades, e nossa vida aqui em Bonaire muito nos lembra a vida normal em um condomínio: vários amigos e conhecidos que se esbarram diariamente e frequentemente compartilham churrascos, happyhours, sessão de filme com pipoca, noites de hambúrgueres e por aí vai.

Claro que vários destes amigos vem e vão, cada um seguindo seu rumo… mas mantemos os contatos pelo whatsapp na expectativa de nossos rumos se cruzam novamente em algum mar azul por aí.

Tudo que disse até aqui faz parte do lado A da história, o lado bom. O lado B vou resumir em um ou dois parágrafos pois apesar dele existir as coisas boas dão de goleada nas coisas ruins.

A parte ruim é que o barco quebra e você vira e mexe se vê metido em manutenções. E a preocupação com revisões antecipadas e manutenções preventivas são constantes. O dinheiro (ou a falta dele) sempre roda também os nossos sonos e temos nos esforçado para enquadrar nossos gastos ao orçamento que prevíamos inicialmente. O calor também às vezes nos esfola de suar e seria ótimo se nosso bolso permitisse ar condicionado a bordo.

Por fim o nosso maior desafio até o momento: a escola a bordo (homeschooling). Eta trabalho danado !!

Temos ficado de 8:00 as 15:00 nessa ralação diaria pra tentar enquadrar a molecada. Eu dou aula de spelling, gramática, matemática e geografia. A Branca cobre ciências, reading, composition e artes…. temos nos dividido mas não está mole não. Você quer saber mais detahes sobre este capítulo?! …dá um pulo no blog da Raquel pois ela acabou de dedicar um post sobre isso.

E pra fechar fica aqui nosso reconhecimento as professoras e professores que já encararam nossas ferinhas… muito obrigado pelo esforço e sacrifício de vcs ! … vcs valem ouro! …e somente agora tomamos consciência do tamanho do desafio e da dificuldade que é enquadrar essas criaturinhas cheias de testosterona.

 

 

 

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