Quer saber como são as férias de velejadores?

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Ogunquit/Maine, 19 de Agosto de 2017.

Navegar pelos EUA durante a temporada de furacões tirou o nosso sossego. Depois de muitas noites sem sono, em fim, decidimos que rumo tomar.

 

Os últimos dois meses foram bem diferentes do que vivemos nos últimos doze meses ancorados pelos mares do Caribe. Depois que chegamos nos EUA a bússola do Itararé rodou de um lado para o outro com planos indefinidos na tentativa de encontrar o nosso norte.

Chegamos a planejar subir a costa leste de barco, mas nossos planos foram por água abaixo depois que percebemos que seria um teste pra cardíaco passar com nosso mastro raspando debaixo de tantas pontes pelo caminho. Com 63.8 pés.. contra 65 das pontes daria para passar com pequena folga na mare baixa, nao eh?! Mas a realidade eh bem diferente…

No rio o volume de água pode ser bem maior ou menor dependendo do volume de chuvas que por vezes ocorre a milhas distantes, apesar da carta náutica falar de determinada profundidade e tamanho de maré para o dia. E como vc prevê isso ?!

Se você ligar pra guarda costeira, para as marinas, para os engenheiros responsáveis pela manutenção da hidrovia… ou para o TowBoatUS (uma espécie de touring deles) todo mundo te tranquiliza ..”just go in the low tide”, dizem eles. Mas o coração acelera mesmo quando você chega no pé da ponte e percebe que a marcação de metragem esta menor do que deveria ser. E ai, o que fazer ? Aconteceu com a gente!

Navegamos por horas rio acima, passamos por duas pontes com sucesso.. mas na terceira (no melhor horário da maré !) um anjo soprou no meu ouvido “vai devagar pois o bicho vai pegar!”.

Em alerta, reduzi quase parando – mesmo depois de ter passado bem nas duas primeiras pontes de mesmo tamanho. Não deu outra. Só não tivemos uma tragedia dado o sopro do anjo, e dado nossa prudência. Na véspera a Branca me levantou no topo do mastro e eu apontei nossa antena do radio (VHF) pra frente preventivamente servindo como um “escudo do mastro”. E foi ela mesmo quem explodiu na ponte…. antecipando a catástrofe. Como vínhamos derivando bem devagar deu tempo de inverter o motor e parar o bichano a tres dedos de quebrar o topo do mastro na ponte.

Com o coração quase pulando pela boca dei meia volta e retornamos 3 horas rio abaixo de volta para nossa ancoragem e depois do quase infarte abortamos a ideia de subir ao norte pela Intracoastal (ICW) – a famosa hidrovia americana que liga a costa leste de Norte a Sul e foi construída na segunda guerra para facilitar a logística de guerra americana evitando os submarinos alemãs. Enfim, historias a parte…. fato eh que não da para seguir viagem subindo 1000 milhas pro norte e ter que conviver com essa dúvida, concordas ?! Não ha coração que aguente tanta sofrencia.

Além disso, a época de furacão (verão) definitivamente não eh boa pra velejador.

Primeiro, o calor é infernal, de tirar qualquer um do sério! Segundo o vento sopra pouco e quando venta normalmente vem junto com pequenas tempestades.Terceiro pelo risco dos furacões e quarto pelo risco de tempestades de raio. Só moleza. Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Virou hábito olharmos diariamente 3 a 4 vezes ao dia o NOAA (agencia americana responsável por monitorar o tempo). Ficamos sempre de olho nas tempestades de raio (que vem quase todo dia) e, principalmente, de olho nos furacões.. que toda semana brota um embrião.

Estes embriões de furacões (baixa pressão) nascem igual a xuxu na serra… e semanalmente ha milhas de distância vem como fogos de artificio sem direção rabiscando caribe adentro até bater na costa dos EUA ou se perder no meio do Atlântico. Sem rotina ou rota definida.

Por vezes o NOOA mostra dois ou tres destes filhotes subindo na mesma semana. Uns morrem pelo caminho, outros viram uma pequena tempestade… mas outras ganham força virando uma “tropical Storm” ou hurricane – e ai sim eles ganham nome e o bicho pega. Até o momento ja foram 10 tempestades destas em pouco menos de 2 meses de temporada. Nenhuma delas, graças a Deus, chegou ate a costa leste da Flórida (local onde esta o Itacaré).

A estatística é a nosso favor, pois poucos destes furacões atingem exatamente o local que estamos.. assim como raro também eh um raio cair na sua cabeca. Mas no mar não vale estatística.. vale sim a prudência.

Por vezes acordei no meio da noite pensando em plano A, B, C… em casos de um hurricane destes vir na nossa direção. Mas a verdade, eh que nossas opções sao muito restritas dado tamanho do barco.

Por um lado nosso mastro é alto (como já descrevi acima) limitando nossa fuga para dentro do continente visto a quantidade de pontes que tem pelo caminho. Por outro lado nosso barco é largo o que limita bastante nossas chances de subir o barco no seco em alguma marina/estaleiro. São 6 ou 7 marinas em toda a costa leste. Mas imagine você como deve ficar a fila de barcos para subir em caso de aviso de tempestade. Deve ser uma confusão danada sobrando vaga para poucos.

Com dúvida subimos de Vero Beach (onde estávamos na Florida) mais 200 milhas ao norte chegando até St. Augustine – pequena cidade histórica linda, que pouco brasileiro vai (não sei porque). Dado sucesso da pequena travessia chegamos a nos animar a seguir 4 dias mais ao norte ate Virginia, onde acharíamos clima mais fresco e teoricamente ficaríamos fora da zona de furacões.

Mas as dúvidas continuavam martelando nas nossas cabeças e em meio a este vai ou fica o tempo foi passando…. fomos ficando por St. Augustine zanzando com nossas bicicletas para todo lado. Não podemos reclamar. De dia curtimos muito, mas de noite por vezes demorava a dormir pensando no que deveríamos fazer.

E justamente no dia em que estavamos nos preparando para seguir viagem de St Augustine para Virginia eis que recebemos a noticia de um susto que outra familia de brasileiros tomou justamente quando navegava a 80 milhas da costa da Florida rumo norte.

Dizem que é mais fácil voce ganhar na mega sena do que tomar um raio na cabeca, não é mesmo?! Pois bem, essa estatística para velejador não vale de nada… e por aqui é muito normal um barco aqui e outro ali ser fritado por um raio no mastro.

E exatamente isso aconteceu com estes amigos. Tomamos o susto como um aviso, e abortamos de vez nossos planos de navegar pela costa leste dos EUA durante o verão.

E no embalo da adversidade veio a solução, …hurricanes, raios, calor…. tamo fora!

Na mesma semana agendamos a subida do nosso amado Itacaré em um estaleiro de St Augustine – um dos poucos que consegue subir nosso barco pro seco. Preparamos tudo para eventual tempestade desmontando velas, cabos, limpando e amarrando tudo, desligando geladeiras, faxina geral, …inclusive amarrando o próprio barco no chão. Dois dias intensos de trabalho e pronto! Acabou o sofrimento. Agora nossa casa esta desmontada e devidamente segura no seco. Melhor assim! Barco no seco não afunda, certo ?!

Mas se nossa casa esta desmontada, onde vamos morar nos próximos 2 meses, é o que vc pode estar pensando ? Vamos sair de férias 😉

A solução veio casada com a primeira. Depois do barco no seco, alugamos um carro por 1 mês e corremos pro walmart e compramos um kit camping: barraca, fogareiro, cadeiras, machado, lampião, cooler… Com U$200 nossa próxima aventura estava desenhada: subir os EUA de carro acampando pelos inúmeros parques florestais.

Inclusive, escrevo estas palavras justamente daqui… mais isso é um assunto para um próximo post. Já esta pronto.. prometo publicar essa semana. Até !

Turistando por St. Augustine

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