Um novo começo

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Curação, 6 de Julho de 2016.
Escrevo estas palavras deitado na cama, de dentro do Itacaré… Zé Cuca tá aqui do meu lado catucando o iPad (acabamos de escrever no blog dele), o Bruno já capotou há tempos e a Branca tá lá encima atualizando o Instagram. Pois é… estamos aqui. A longa travessia terminou, um novo capítulo das nossas vidas acabou de começar.
Por vezes custo a acreditar que o que estamos vivendo é real… É como se sonho misturasse com realidade. Estes dias me peguei apressado com as arrumações, acelerado, como se tivesse que deixar logo tudo pronto como se daqui há pouco as férias fossem acabar – mas logo cai na real de que não há motivos para ter pressa. Afinal, a partir de agora temos “todo tempo do mundo”.  “Tempo”… algo tão precioso. A vida inteira ele me faltou…
Chegamos aqui em Curação dias atrás (última quinta) depois de uma maratona com as bagagens. Pra variar exageramos de novo e fomos esfolados dado excesso de peso. A Copa enfiou a faca e rodou. Tentei relaxar… Afinal desta vez trata-se da nossa mudança de casa. Quanto custaria um caminhão se estivéssemos de mudança em SP ?
Até ontem nossa vida estava bem bagunçada com tralha pra tudo quanto é canto, o barco sujo e desorganizado… muita coisa pra fazer, mas aos poucos fomos colocando as coisas nos seus lugares e tirando o diabo das caixas de papelão em definitivo das nossas vidas.
Nossa cozinha já ganhou forma, as cabines (quartos) também… Meu armário então ficou impecável – minhas cuecas nunca foram tão bem dobradas e organizadas! …trabalho da Branca, obviamente, pois se fosse por mim meu armário pareceria um vulcão. Por falar em cuecas, to bem satisfeito com minha média atual de uso, acho que elas devem durar uns 7 anos neste ritmo. (Pra matar a curiosidade do povo da cidade) aqui usa-se muita sunga bermuda e nada mais. Mas tem uns por aí que andam peladões mesmo.. (As crianças inclusive têm perguntado o porque dos peladões mas a gente logo acalma eles explicando que faz parte da nossa volta ao mundo).
Dias atrás alugamos um carro, uma chumbrequinha miúda e barata, mas que muito tem nos ajudado neste início – ela (a Chumbreca) deve ficar com a gente por duas semanas. Já fizemos mercado, compramos chip pro celular, compramos uma tv pras nossas sessões de cinema… e aos poucos a vida vem endireitando-se. …cada picaretinha também comprou seu próprio celular pra poder tirar fotos, fazer vídeos e manter seus blogs atualizados. Se dependesse do pai seria o mais barato da loja, mas como a vovó deu de presente pra cada neto uma carga de dólar – não tive como segurar.. “…valeu vovó Beth!!”, gritaram eles. (Ohh vovó, me manda uma carga de dólar também pois to precisando!, grito eu.)
Mas como nada é fácil neste começo, quando voltamos pro barco ficamos sem gás..  e aí nossa luta começou. Ficamos cinco dias numa gincana pra resolver está desgraça e o que nos salvou da inanição foi a velha churrasqueira a carvão. Já rolou pizza, frango, carne, legumes, shitake no papel alumínio… e por aí vai. O rango até que ficou muito bom – cada dia melhor, mas duro foi sobreviver sem o cafezinho de todo dia (minha mão chegava a tremer). Brincadeiras à parte, mas esse papo de gás quase nos tirou do sério.
Rodei a cidade de ponta a cabeça umas quinze vezes – sem sucesso. Primeiro tentamos encher nosso botijão. Desistimos. Afinal, Cavalo anda com cavalo, boi anda com boi… Então, dado que nosso botijão é francês pra que ele serve aqui nesta ilha holandesa?!
Mudamos o alvo e passamos a tentar comprar um botijão local,mas nenhuma loja vendia ! …rodamos para um lado, rodamos para o outro …e quando já íamos desistir, eis que aparece um “abandonado” nos fundos de um mercado, sujo e esquecido. Agarrei ele como aquele bichinho do filme infantil que agarra as nozes! …mas a gincana não acabou, só pulou de fase. O desafio agora era conseguir enche-lo, e como ele era padrão “barbecue”… depois de muita luta concluimos a tarefa no posto de gás central da cidade um dia depois. (E nada de café!)
A sofrença não parou ai não. ..e pra matar qualquer santo de infarto o desafio maior foi tentar adaptar o diabo da botija holandesa na mangueira do nosso barco francês (lembra do boi?).  Nada é fácil rapaz! Tentei fazer umas gambiarras mas o gás cismava de vazar pra todo lado. Achei que fosse explodir nossos sonhos logo na partida – literalmente. Depois horas e um vai e vem dos infernos procurando o adaptador certo em todas as lojas da cidade acabou que achamos … e hoje tomamos nosso primeiro cafezinho a bordo.
…para finalizar o dia (e a piada) hoje no fim de tarde fomos em uma loja comprar umas tralhas, e quando passamos pela área de barbecue adivinha o que que nos achamos ?? …claro, uns cinquenta botijões lindamente organizados enfileirados. Desgraçados! …o que que eu fiz? Comprei outro, claro. De falta de gás é que não morro ! …pra você ver como a vida a bordo é mais complicada do que você imagina.
Pra finalizar: Por enquanto estamos atracados no pier de uma marina (Seru Boca Marina), vivendo o capítulo “arrumando a casinha” e por aqui devemos ficar pelos próximos 30 dias. A ideia é organizar a vida e nos adaptarmos com calma a uma nova rotina. Depois vamos preparar o barco para aos poucos – degrau a degrau – ir se lançando ao mar.
Em breve vamos colocar uns posts sobre nosso Itacaré – pra matar a curiosidade do povo… E contar também um pouco da rotina da molecada. E estamos tb carregando mais fotos no instagram e no facebook (itacaresailing).

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